Quem escolhe um edifício antigo para morar ganha um apartamento maior, mais barato e mais bem localizado
Na Vila Pompéia, na cidade de São Paulo, o lugar onde escrevo este texto é um apartamento construído no final dos anos 50. Não é enorme. A área construída tem quase 100 metros quadrados. Mas tenho duas varandas, uma em cada quarto, e em ambas uma bela vista para a cidade. O banheiro, único, tem uma banheira da época. E o pé-direito, distância entre o piso e o teto, é alto - assim eu tenho mais luz e circulação de ar na minha morada.
Mas não sou só eu e os meus vizinhos que nos beneficiamos da resistência desse velho edifício. Pode parecer exagero, mas São Paulo inteira ganha. Todo mundo sabe que uma cidade é mais aconchegante e humana se mantiver bem conservados seus prédios antigos. Primeiro porque as construções antigas se comunicam de forma singular com a memória dos habitantes. Depois porque também com os imóveis vale aquele ditado: hoje não se fazem mais como antigamente. Os prédios antigos são em geral mais amplos, iluminados e mais baratos que os novos edifícios.
Feitos para durar
Os primeiros prédios apareceram nas cidades brasileiras em meados da década de 20 (em 1930, São Paulo tinha entre 20 e 30 edifícios para uso exclusivamente habitacional). Nasceram com espaços amplos, voltados para o sol e feitos para durar, com acabamentos sofisticados, como ladrilhos hidráulicos e azulejos especiais no banheiro. Esse ar de conforto e mesmo luxo tem explicação: morar em um apartamento daquela época deveria ser melhor ou igual que morar em uma casa.
É que, ao contrário do que aconteceu na Europa, onde os apartamentos surgiram para atender a uma demanda de moradia da população de baixa renda, aqui foi uma questão de status da classe média. "Para que o apartamento fosse bom, teria que ter espaços similares ao palacete, à casa grande", diz o arquiteto Carlos Lemos, professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo. Ter espaço permite arranjos decorativos conforme o gosto do morador. Em outras palavras, com espaço é possível criar e recriar a morada, o que dá mais conforto.
Aos poucos, a indústria da construção percebeu a vantagem de construir apartamentos com áreas úteis menores para obter mais unidades por edifício, que também cresceu em altura. Resultado: tudo foi ficando apertadinho. O detalhe é que as famílias brasileiras não abriram mão dos itens do imóvel, e os apartamentos, mesmo pequenos, mantiveram o número de quartos, uma ou duas salas, áreas de serviços e até dependência de empregada. "Tudo ficou menor. E diminuíram as possibilidades de dispor o mobiliário de forma confortável", diz Carlos Lemos. Eis aí a primeira vantagem de se morar em prédios mais velhos: são mais espaçosos. A segunda é que, por conta de seus materiais de melhor qualidade, são mais charmosos também.
E morar em prédios antigos pode sair bem mais em conta. Sim, porque seu valor de custo de construção já foi pago pelos primeiros moradores, e, em geral, demandam menos recursos energéticos - e, por isso mesmo, têm impacto ambiental menor. Além do mais, conforme a cidade, são desvalorizados pelo mercado imobiliário - ou seja, custam menos.
O começo
Esses são lugares muito especiais, porque ali estão guardados, bem ou mal preservados, seus marcos históricos - os primeiros prédios, bibliotecas, mercados públicos etc. Mais que isso, nesse espaço se condensa a multiplicidade da metrópole, seus diversos tempos, representados em variados tipos de arquiteturas. No centro estão guardados também muitos dos prédios históricos de uma cidade, construídos para se morar. São considerados históricos porque "remetem àquilo de uma época que foi e não é mais, àquilo que jamais pode ser reproduzido", diz o arquiteto e urbanista Silvio Zancheti, professor do Centro de Estudos Avançados da Conservação Integrada (Ceci/UFPE), no Recife.
De uma maneira geral, os centros das cidades perderam seus moradores ao longo do tempo. "Por conta da poluição, do barulho, dos engarrafamentos e mesmo problemas de segurança", diz a arquiteta e urbanista Jupira Gomes de Mendonça, professora da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte. Sem seus moradores, fica difícil manter com vida os centros das cidades. Daí seu esvaziamento progressivo. A tal ponto que prefeituras de cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador e Recife mantêm em seus programas de revitalização dos sítios históricos iniciativas que prevêem a atração de seus moradores. Parece que finalmente se compreendeu o óbvio, que é impossível preservar qualquer parte da cidade se nela não estiverem presentes aqueles que a tornam viva: seus habitantes.
O resultado é que, pouco a pouco, estão sendo reocupados os privilegiados prédios centrais. Seus moradores são gente como o documentarista Sérgio Rozemblit, que comprou um apartamento no Edifício Eiffel, debruçado sobre a Praça da República, no coração de São Paulo. O desenho de Oscar Niemeyer, o espaço de 140 metros quadrados divididos em um dúplex e "um jardim como a Praça da República" foram os motivos que fizeram Sérgio, casado e prestes a ser pai, a escolher o Eiffel, um patrimônio tombado, para viver. "Além do fato de eu estar muito perto da vida tal qual ela é. O centro reúne um pouco de tudo, todos os mais variados tipos de pessoas. E isso me interessa", diz Sérgio.

Nenhum comentário:
Postar um comentário